Era uma noite com chuva, não muita, mas o suficiente para trazer guarda-chuvas à paisagem. Estava quente, o barulho dos carros passando no asfalto molhado era uma das poucas coisas que se podia ouvir naquele final de dia, onde tudo que se quer é chegar em casa, tomar um banho e descansar.
Quase se podia sentir o conforto da poltrona e o cheiro de pipoca, mas o humor não era dos melhores depois de um longo dia. Ah, mas quando chegasse em casa...
Sentia falta dela... Porque as coisas são sempre assim? O céu parecia chorar sua... Opa, o ônibus! Estranhamente havia fila na porta. O ponto que há pouco estava vazio agora surgiu gente o bastante para gerar um pequeno tumulto para entrar. Era uma guerra de guarda-chuvas e um empurra-empurra para conseguir um lugar sentado. Com um pouco de atenção podia-se observar algumas técnicas d'A Arte da Guerra! Do lado de dentro as janelas fechadas para não entrar água tornavam o ambiente ainda mais quente. Que inferno...
A longa viagem para casa parecia ainda maior, seu rosto refletia na janela, enquanto observava os carros passando. Mas não era tão ruim quanto parecia, ao menos estava ouvindo música e, ao seu lado, com apenas um corredor os separando, uma linda garota que olhava assustada ao redor. Será que conseguiria tentar algo? Mas tudo era tão recente... Ainda sofria desde que ela... -Hã? Ah, são 9:30!
- Obrigado, disse o velho homem ao seu lado.
Ele passa a mão pelos cabelos com uma certa impaciência, melhor não puxar assunto.
A garota ao lado tinha um olhar mais calmo, porém estava inquieta, mas quem não estava no fim de uma segunda-feira?
Sua velha poltrona e o cheiro da pipoca foram ficando mais distantes conforme o ônibus reduzia a velocidade, ainda assim o silêncio que sabia existir em sua casa assustava muito.
O olhar alternava entre a janela e a menina do corredor. Não queria que ela percebesse, mas... É, é melhor olhar apenas pela janela. Estava tocando Smoke on the Water no MP3 player, enquanto algumas gotas de chuva insistiam em passar pelo pequeno vão da janela e acertavam seu braço.
Era aquele o lugar, sim bem debaixo daquela árvore foi a primeira vez que... MEU PONTO! Correu para tentar descer, mas não deu tempo.
Não tem jeito, é saltar no próximo e voltar andando um pedaço. Neste momento, sente um leve toque no braço e olha para trás. Ali estava a menina do corredor, de pé, olhando em sua direção e diz:
- Vai descer no próximo?
- Vou, perdi o meu ponto.
- Bem, pelo menos está com guarda-chuva, ela diz com um leve sorriso.
O ônibus para, desce na frente. Ao olhar para trás, ainda a vê correndo para baixo de uma marquise.
Vai até ela, mas não sem antes dar uma deslisada e quase cair, hoje não é seu dia.
- Está sem guarda-chuva? Pergunta.
- O meu ficou no trabalho, mas eu moro aqui atrás, estou apenas esperando a chuva diminuir um pouco.
- Te levo até lá, esse horário é perigoso andar sozinha por aí.
- E porque eu deveria confiar em você?
- Tudo bem, não confie. Virou as costas e saiu.
- Espere, espere! Desculpe, eu...
- Não tem problema, vamos.
O caminho era curto, mas foi o bastante saber seu nome e telefone. O papo havia sido bom, agora era esperar e ver se ela realmente ligaria. Ao chegar em casa, uma pequena confusão surge em sua cabeça, mas logo é transformada em tristesa. Até o cheiro fazia lembrar... Ao passar de um cômodo para o outro, poderia jurar ter visto ela ainda andando no corredor. A sensação era tão forte, que acabou voltando 2 vezes no cômodo anterior para se certificar que não havia ninguém. E logo naquele lugar... Era ali que costumavam... *bocejo* Que sono, melhor ir dormir, o dia seguinte seria bem longo.
Continua...
Sexta-feira, Abril 04, 2008
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4 comentários:
Ótimo! Agil, intenso, natural, uma leitura prazeirosa e de uma agradável e real simplicidade.
Aguardo a continuação!
A cada dia está melhor!!!!!!
Bjs
Só uma ooisa q esqueci. Vc cita Deep Purple, mas, guitarra por guitarra, sou mais Dire Straits!
Bjs
gosto dessas histórias onde o cotidiano é tranformado em algo especial... belo cenário o que vc construiu!
Obrigado! :)
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