André tinha todo um jeito próprio de ser, cabelo, roupas, modo de falar e até mesmo de andar eram próprios, daquele estilo de pessoa que mesmo em silêncio, sob uma grande fantasia de carnaval, poderia ser facilmente reconhecido.
Porém não era só na aparência que André era diferente, seu jeito de pensar, os olhos em que via o mundo e sua noção de realidade eram diferentes dos demais. E isto nunca foi um problema para André, muito pelo contrário, André gostava e se gabava de ser assim! Em muitos casos seu jeito alternativo de ser lhe rendia amizades e, mais que isso, o transformavam algumas vezes no centro das atenções entre os amigos.
- Ah, ele é uma coisa, dizia uma das amigas do André, é impossível não gostar dele!
Até mesmo as meninas que mal o conheciam já tinham certeza que ele era especial! E nunca esconderiam estas palavras dele!
E o André se acostumou com isso, até demais para o seu gosto...
- Ai André, você é o máximo, sabia? Mas vem cá, te falei do Pedro?
- Qua...
- O da festa da Simone, ele me chamou para sair! Será que eu devo aceitar logo de cara ou me fazer de difícil?
- Ah...
- É, é melhor eu aceitar logo antes que ele chame outra! Beijos! - E a Angela desliga o telefone.
E era sempre assim, André era o máximo, era especial... Especialmente deixado de lado pelas garotas. E a frase que de início era um grande prazer em ser ouvida, passou a ser um martírio na vida de André. O "especial" havia deixado de ser sinônimo de "cara incrível" e passado a ser de "pessoa com problemas mentais". Afinal, não era possível! Como alguém que era tão especial, tão isso e tão aquilo, poderia ser deixado tanto de lado? Mas deve haver alguma solução... E qual seria?
Como num estalo, André se levanta da cadeira, folheia a agenda de telefones e procura os números daquelas garotas bonitas, mas que ele pouco tinha contato. Monica era o nome da primeira que aparecia, seus longos cabelos encaracolados, suas delicadas mãos... É para ela que ele iria ligar.
- Alô?
Os lábios de André estão fechados, os olhos arregalados, nem mesmo respirar André consegue.
- Alô? Alô? - Insiste a Monica.
Mas a coragem de André havia saído pela janela. Sua timidez era grande demais para falar com uma garota assim, mas ele precisava tentar novamente! Bebeu 2 goles de água muito gelada, pigarreia, tira o fone do gancho e começa a discar.
- Alô?
- Oi Monica, aqui é o André!
- Oi André, quanto tempo!
- É sim, não é? Me diz uma coisa, será que você... Tem o telefone da Andréia?
- Não tenho André, desculpa... Ah, eu estou querendo compania para passear um pouco, você não quer ir na praça da alegria comigo?
- Cl-cl-claro!
- Combinado então, às 19h eu vou estar lá!
André se prepara durante todo o dia, leva o carro para lavar, toma aquele banho, se arruma todo até ter certeza que está impecável!
E às 18:30h ele já estava na praça da alegria, todo arrumado, encostado no próprio carro, que reluzia de tão limpo, enquanto esperava a Monica.
- 19h! Agora sim está no horário que marcamos, ela já deve estar chegando...
20h... André já desesperado tentando ligar para Monica e seu celular dava fora de área. Ligava para o telefone fixo, mas ninguém atendia. O que teria acontecido com Monica? Mesmo assim André espera, não era todo dia que conseguia um encontro. 20:30h... 21h... 21:30h... André desiste e volta para casa.
No dia seguinte, logo cedo, o telefone toca, era Monica, pediu desculpas pelo dia anterior, foi aniversário da sua Avó e ela havia se esquecido. Tentou ligar, mas o celular dela não pegava naquela região.
A tristesa de André no mesmo momento se transformou em felicidade! E antes que ele pudesse pensar em algo, já havia deixado escapar pela sua boca um "Não tem importância, vamos na próxima sexta no cinema?", que Monica aceitou sem pensar duas vezes.
A sexta chegou, mas a Monica não. E André não sabia mais o que estava acontecendo... Suas amigas diziam que ele era um cara especial, e que se ela não liga para ele, muitas ligam. Porém ele sabia muito bem que não haviam muitas, para falar a verdade, só havia a Monica, e que ele a queria e ela dizia querer ficar com ele.
Marcaram outra vez no sábado, na outra sexta, dois sábados depois e nada... Nenhum encontro, cada dia um problema (ou seria uma desculpa?). Não importava, só que André não queria mais saber disso, e quando a Monica ligou para dar a sua habitual desculpa, André a interrompe:
- Não importa, chega, já sei, não deu!
- Ma...
- Cansei, se você não quer sair comigo, não saia! Mas não minta pra mim dizendo que quer!
- Eu nu...
- Acabou, ouviu? Não vamos sair mais, não vamos nos ver mais, não quero sequer ouvir a sua voz! Acabou! Nós nunca saímos, mas nem a primeira vez terá, chega e está acabado!
- Ele desliga o telefone com violência, sem deixar que Monica fale.
O tempo passa e, 7 anos depois, André está andando por um Shopping e vê a Monica.
- Oi!
- Oi, André! Quanto tempo!
- É... Faz tempo mesmo! Como vai?
- Eu estou bem! E você? Novidades?
- Não, não. Continuo tudo na mesma, e você?
- Ah, tá vendo aquele homem de verde alí, na porta do loja de produtos naturais? É o meu marido, Marcelo. Eu estou trabalhando agora em uma multinacional, sabe, estou adorando essa vida.
- É... Legal... Eu me mudei, sabia?
- Sabe aquele dia que você não me deixou falar no telefone? Eu estava querendo dizer que eu havia conseguido terminar com o Marcelo e que a gente poderia até começar a namorar. Não te contei dele pois não queria que você achasse que eu estava te dando um fora... Só que nós acabamos voltando e nos casamos. Bem, agora eu tenho que ir.
- É... Aparece lá em casa...
- Claro! Beijos. - Monica falava enquanto caminhava para perto de seu marido, sem saber o novo endereço do André.
E André continua diferente... Todos os amigos sabem, ele foi o único que não se casou, não se envolveu com mulheres (ou homens, até onde saibam) e agora mora distante, em... Qual é mesmo o nome daquele bairro? Não importa, ele nasceu para ser diferente, enquanto todos se casam, ele se isola do mundo. Mas deve estar bem, vocês viram quantas mulheres dizem que ele é especial? É, eu queria ser especial para tantas mulheres assim...
Domingo, Outubro 07, 2007
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